Pescaria inesquecível

Confira a agradável narrativa de uma pescaria de dourado do nosso amigo Antonio Luiz Noronha, ocorrida nos anos sessenta...

Lembro-me que era um sábado, fins de abril de 1962. Por volta de dez e meia da manhã, sem vento, a água do Rio Verde estava limpa. Eu estava pescando de rodada com meu irmão João, na corredeira da margem esquerda abaixo da estação da Flora. Canoinha de madeira de cedro, pequena e leve. Quando seca, pesava pouco mais de 300 quilos, toda cavernada, banco havia só para o piloteiro.

 

Usávamos varas de cana da índia com seis metros de comprimento feitas em casa, cortadas na lua certa, bem trabalhadas, com encastôo de corda de tucum de um metro em cada ponta. Linhas de aço mustad, de três metros mais ou menos. Anzóis mustad /8 iscados com dois bons lambaris de rabo vermelho pegos na barra do rio Palmela, na  divisa entre os municípios de Três Corações e Varginha.

 

Eu ia sentado no banco do piloto, e meu irmão sentado no fundo da canoa reclamando, pois nunca gostou de pescar de rodada. Achava chato. Bom mesmo para ele era apoitar numa sombra, jogar a linha de fundo ou armar a vara de pescar e ficar pitando, esperando o que viesse.  


            
Estava com o cabo da minha vara no vão das pernas, apoiada pela mão esquerda, pois a mão direita segurava o remo puxando devagar, reduzindo a velocidade da canoa na passagem pela corredeira. Mantendo, assim, a linha de aço bem esticada, no lado esquerdo da canoa.  

 

O João pitando um cigarrinho Petit Oval roubado do meu avô. E eu que já tinha algum dinheiro meu, pitava um Mistura Fina, cigarrinho do qual sempre gostei... E o Joãozinho reclamando: “que coisa mais chata, tá um calor danado! Olha que sombrinha boa debaixo daquela árvore! Vamos dar uma paradinha, esta tal de rodada dá trabalho demais”, dizia ele sentado no fundo da canoa, olhando para mim com a vara embaixo do braço esquerdo e pescando do lado direito, pois era canhoto.

 

De fato, pescar de rodada com canoa a remo dá trabalho. Descendo o rio tudo bem, você rema devagar para trás, só para reduzir um pouco a velocidade da canoa em relação à correnteza do rio. Mas, quando passava o ”ponto” da rodada, o jeito era virar a canoa, buscar a margem e meter o remo rio acima (o que em lugar de correnteza não é fácil) até chegar ao lugar de recomeçar a rodada. Já tinha feito isso umas cinco vezes, e já estava meio cansado. Era uma rodada boa, comprida, mas isto significava também um bom tempo remando forte para voltar ao começo e voltar a pescar.

E o João falando, e eu fingindo que não ouvia, pois quem estava fazendo força no remo o tempo todo era eu sozinho. De repente, a ponta da minha vara deu uma curvada violenta, o cabo da vara subiu com força e me deu uma pancada nos bagos! O João berrando "SEGURA QUE É GRANDE!", e eu sem saber se largava o remo e punha a mão nas partes que estavam doendo ou se segurava o cabo da vara.   Firmei o cabo da vara e o dourado pulou bonito, pertinho, umas três ou quatro vezes. Pois o bicho era grande e o dourado grande pula pouco. Aí, neste momento, só me lembrava das lições do meu pai e do meu avô:  "mantenha a vara para cima, não dê ponta de vara, deixe a vara brigar com o peixe, não puxe".

 

O João sempre contava que o bicho prancheou logo. Mas, eu não me lembro direito, só me lembro do Dourado no fundo da canoa, e eu sentado no banco com as partes ainda doloridas.  Aquele foi o maior dourado que já peguei na minha vida: 12 quilos sem a barrigada, pesados na balança da estação da estrada de ferro da RMV em Flora.

 

Até antes de falecer, meu irmão quando queria me amolar me imitava, lembrando aquele momento que eu não soubre o que fazer com o remo, a vara de pescar e os bagos  doendo.  

 

De fato, aquela foi uma pescaria que não vou esquecer nunca. Valeu a pena a dor? Toda pescaria vale a pena, mas as que fiz com meu irmão, meu pai ou meu avô  são para mim inesquecíveis. Até nos momentos ruins, como quando pescando curimbatá, numa enchente do rio Machado, afluente do Sapucaí, perto da cidade de Fama... meu pai tarrafeou um mourão de cerca grande, que estava com os fios de arame farpado enrolados em volta, e eu tive que mergulhar um bocado até conseguir cortar a corda da boca para recuperar os chumbos. E ainda era mês de julho...