Um fenômeno chamado repiquete - Francisco Stargling

Leiam o excelente artigo de nosso amigo e pescador Francisco Starling, falando com segurança sobre o comportamento das águas dos rios e suas consequências para a pescaria.

Como muitos sabem, os rios da região denominada “Amazônia Legal” têm seu regime de chuvas  bastante complexo. O primeiro trimestre é conhecido pela “cheia” dos rios e o último pela “vazante”, sendo o segundo e terceiro trimestres dominados pelas oscilações, entre os picos da enchente ou de seca naqueles cursos d’água. Esta regra, todavia, sofre exceções e algumas vezes a água demora a baixar prorrogando a cheia e em outras épocas, são as chuvas que tardam, prorrogando o período de seca. Ambos os fenômenos citados acima são, até certo ponto, previsíveis e meteorologicamente apuráveis.


Porém, algumas vezes o ciclo normal das águas amazônicas sofre alterações de subida e descida drástica por conta das chuvas que ocorrem nas cabeceiras dos rios, por exemplo. Nestes casos, a oscilação é tão grande que afeta o metabolismo dos peixes, modificando substancialmente o seu comportamento. Em tais situações, alguns peixes ficam inativos, outros têm seu tempo de reação às ameaças alterado, passando a atacar  somente se as iscas ficarem por mais tempo em sua proximidade e reduzindo assim, sua área de ação. Esse fenômeno é chamado “repiquete” amazônico, que já frustrou tantos pescadores e pescarias.


No ano passado, havíamos participado de uma pescaria inesquecível no rio Telles Pires, na região conhecida como Sete Quedas, localizada no Estado de Mato Grosso. Capturamos numerosas espécies como tambaquis de até 30 kg, jundiás em torno de 10 kg, corvinas de 5 kg, armáus  de aproximadamente 10 kg, matrinxãs de 4 kg, e minha preciosa piraíba de 40 kg, isso tudo entremeado de cacharas, pirapetingas, jaús, pacus-borracha, cachorras largas, piranhas, entre outros tantos, e por isso este ano resolvemos voltar ao mesmo local.

 

Este ano novamente fizemos contato com a Pousada Portal da Amazônia, situada em Paranaíta, e reservamos nossa ida exatamente no mesmo lá em 2009, já que fizemos uma grande pescaria. Porém, desta vez eu estava sem meu companheiro Rodrigo e logo que cheguei recebi a notícia de que após iniciar a descida de suas águas o rio recebera fortes chuvas em suas cabeceiras, e subira mais de dois metros acima de seu nível normal. Era ele: o terrível repiquete.  Mesmo me cercando de diversos boletins que não indicavam chuvas no local, fui pego de surpresa pela natureza. Embarquei com ótimas perspectivas de pesca e me deparei com uma situação totalmente adversa.


Como estava sozinho, optei pelo deslocamento aéreo no aeroporto de Goiânia e com isso conheci outros quatro pescadores da cidade que iriam encontrar um grupo de médicos-pescadores na mesma pousada. Com isso, fiz novos 17 amigos nesta aventura. Na noite do mesmo dia em que chegamos à pousada, com a ajuda do guia Marcelo, fomos montar e separar o material e, por antecipação, descartamos a pesca com iscas artificiais. Isso porque, com o repiquete, os peixes que seriam o alvo preferencial mostravam-se inativos. As matrinxãs eram raras, as bicudas mais ainda, e mesmo as cachorras largas, que normalmente as atacariam sem tréguas, não geraram qualquer ação nas vezes  que, por teimosia,  arriscávamos os arremessos.

 

Após optar por iscas naturais, os preparativos do dia seguinte foram finalizados com a preparação dos tags para a marcação dos peixes capturados.  Também selecionamos quatro equipamentos:  dois deles de categoria extra-pesada (varas 120 e 80 lbs, com carretilhas ABU 10.000 BIG GAME  e MITCHELL  RIPTIDE, com linhas de monofilamento 0,90 mm, anzóis 10/0 e 12/0);  e média-pesada (varas ABU 40 libs e Marine Sports  30 lbs, com carretilhas  de perfil redondo ABU 6500  E  6500 C3, com duas velocidades, munidas de linhas de monofilamento 0,60 e 0,50 mm, anzóis 8/0 e 7/0, encastoados) e mantivemos de reserva um equipamento pesado (vara Marine Sports 50 lbs, com carretilha perfil redondo PENN 975, municiada com linha multifilamento de 50 lbs com líder de fluorocarbono 0,60 mm e anzóis 8/0 empatados).

 

Nosso primeiro objetivo era os tambaquis e pirapetingas, e nesta oportunidade, eles poderiam ser encontrados somente nas cevas espalhadas pelo rio e constantemente abastecidas e protegidas pelos guias da pousada. Isso porque os cajueiros este ano não deram frutos, impedindo, assim, o aproveitamento das cevas naturais com frutas da estação. Na pescaria do ano passado percebi que o anzol era atacado diretamente na linha e perdi vários exemplares de tambaquis, mesmo com a tralha pesada. Quando um peixe vive em um rio com correnteza ele é extremamente forte e por alimentar-se de castanhas e coquinhos de palmeiras diversas, possui uma dentição similar a um alicate de pressão. Isso faz que, mesmo com anzol 12/0 e com linha 0,90 mm, na briga, o peixe consiga virar o anzol na boca e passar em seus dentes e não evitando sua perda. Depois de tal experiência na pescaria deste ano fui preparado com anzóis encomendados sob medida, com empates de aço rígido curtos ( 5 cm) como um pequeno prolongamento da haste, e por isso não perdi nenhum peixe redondo.


O importante no empate é que ele funcione como parte do anzol (evitando a mobilidade no olho do anzol), prolongando a proteção à linha.  Assim, no primeiro dia pesquei um tambaqui de aproximados 20 kg, e uma pirapetinga de 18 kg, além de um incrível Double com um armau de 9,5 kg e um pacu borracha de 3,5 kg, este último na bóia acompanhando a ceva flutuante.  No dia em que fomos às cevas, foram pegos, tagueados*  e soltos três tambaquis e duas pirapetingas.  No segundo dia, subimos o rio, até próximo à primeira queda e, sempre usando isca branca (pequenos peixes fisgados no próprio rio) conseguimos pegar boas cachorras largas, que foram fisgadas quase embaixo do barco, a aproximadamente três metros da margem. Uma delas media um metro e pesava cerca de 8 kg, que foi solta e também estava tagueada. Jundiás e pequenos jaús foram fisgados, mas, apesar do risco de enroscar a linha, já que estávamos próximos a pedras e locas, foi necessário movimentar o barco para reposicionar as iscas e provocar o ataque.


Ao longo de toda a pescaria, esse foi o período de auge do repiquete, pois se a isca fosse simplesmente lançada no poço, nada ocorreria, mas caso fosse movimentada, ainda que lentamente, o ataque de cachorras e peixes de couro acabava acontecendo.  No mesmo pesqueiro, e com a mesma estratégia de movimentação das iscas brancas, as corvinas também vieram a bordo. Elas foram pesadas, medidas e devolvidas rapidamente ao rio.  Infelizmente, os grandes bagres não apareceram, mesmo subindo o rio pelas trilhas em plena floresta amazônica, onde o festival de cachorras largas faz a festa para os aventureiros, em local ermo e selvagem, em que todos os passos devem ser norteados pela prudência e cautela, eles também não nos presentearam com sua visita.

 

Nos dias seguintes, devidamente saciados de peixes de escamas, continuamos atrás dos grandes peixes de couro da região. Apesar da intensa movimentação de barcos, foram poucas as ações dos grandes bagres.  Dos 19 pescadores que estavam no local, apenas uma dupla embarcou duas piraíbas, isso no penúltimo dia.  Outra dupla encontrou um caparari e outra embarcou uma bonita pirarara, mas nenhum desses eram peixes nas proporções gigantescas normais no local.


Todos os pescadores que lá estavam, vivenciaram um período crítico (e atípico) da vida do rio Telles Pires. O rio sempre tão pródigo de peixes foi mais econômico nestes dias, mas nem por isso deixou os pescadores sem os frutos de seu esforço. A cada jantar na pousada, as trocas de experiências resultavam de informações sobre capturas e técnicas, e isso, somado ao profissionalismo e capacidade de cada um das equipes da pousada,  fizeram com que os hóspedes pescadores aproveitassem cada dia, e deles tirassem proveito e o merecido descanso. Ao realizar o sonho da pescaria em local privilegiado, se o amigo pescador puder aproveitar as pequenas dicas aqui lançadas, ao embarcar um peixe marcado com etiqueta amarela e numerada, colha seus dados (com a ajuda do guia) e os repasse aos proprietários das pousadas, para que o trabalho de tagueamento e controle não cesse. E, com a filosofia do “pesque e solte”, as informações obtidas possam ser utilizadas por muitas outras gerações em perfeita harmonia com a natureza e com nosso esporte predileto: a pesca esportiva.


* Nota:  Os marcadores, conhecidos como tags, são utilizados em várias partes do mundo para viabilizar   o acompanhamento dos peixes, tanto no mar quanto nos rios, e proporcionam meios de controle de taxa de crescimento das espécies alvo, bem como suas rotas de deslocamento durante o ano, entre outros dados. Tendo em vista que muitas pousadas da região Amazônica se dedicam ao pesque-e-solte ao devolver os peixes capturados ao rio é importante providenciar os materiais necessários bem como uma preparação dos guias para realização do procedimento, que inclui a anotação da espécie, tamanho, peso, local e horário da pesca. Tal medida, somada a um amplo intercâmbio de informações geraria a todas as pousadas um precioso mapa dos deslocamentos e um efetivo controle dos resultados da pesca esportiva nos rios da região. Todavia, isso ainda não aconteceu, e seria uma ótima sugestão a esses estabelecimentos, pois o benefício surtirá para todos.


Para o procedimento do tagueamento busca-se a forma menos invasiva para a fixação do tag (etiqueta numerada e com trava similar ao lacre de malotes de correios) na nadadeira dorsal. O marcador é colocado de uma forma que, se o peixe entrar na mata alagada e o tag se prender na vegetação ele se romperá e a pele da nadadeira e não ficará presa pela etiqueta. O furo feito na base da nadadeira com esterilização por iodo, nem sequer sangra e não coloca o peixe na mira das temidas piranhas ou candirus.

        
Texto e fotos de FRANCISCO  STARLING

Nossos agradecimentos à revista MUNDO PESCA